Terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Hora de balanço - Iran Coelho das Neves

Publicado em: 06/12/2019 às 13h45


Iran Coelho das Neves

A aproximação do fim do ano é época propícia a reflexões sobre o que fizemos e o que deixamos de fazer com o tempo que o calendário implacável nos delimitou e, principalmente, com as oportunidades que tivemos para construir pontes de aproximação com nossos semelhantes, aprimorar nosso espírito de solidariedade e estreitar os laços de afeto e de compreensão com os que estão mais próximos de nós, seja na família, no trabalho ou no convívio social. 

Nestes tempos de comunicação instantânea, de exposições pessoais exacerbadas e radicalismos desconcertantes nas ditas redes sociais, a ansiedade atiça o imediatismo que, frequentemente, leva a confundir fama fugaz com sucesso, substituindo o empenho por conquistas duradouras – e, por isso mesmo, mais difíceis – pela ilusória sensação de vitória a partir de algum destaque nas fabulações digitais.

Mesmo para os que não se deixam levar por esse babélico frenesi das redes conectadas, a torrente avassaladora de informações e a velocidade com que certezas absolutas são pulverizadas ao comando de um clique parecem abreviar o tempo, atropelando o calendário.

Dito de forma simples, é como se a fluidez das comunicações instantâneas diluísse as marcações do tempo, subjugando-o aos caprichos de cronômetros que já não contam segundos, minutos e horas, mas, sim, a volatilidade desse universo paralelo em estonteante expansão.

Mesmo assim, o bom e velho calendário gregoriano que, promulgado pelo papa Gregório XIII em 1582, ainda – até quando? – é capaz de nos lembrar que mais um final de ano se aproxima. E, com ele, a inescapável sensação de que devemos a nós mesmos um balanço sobre o que fizemos do tempo que nos foi dado.

Diferentemente das corporações, cujos balanços devem revelar ganhos financeiros capazes de entusiasmar acionistas e celebrar estratégias para lucrar mais e mais, o nosso balanço pessoal deve ocupar-se em definir o nosso pif anual, ou seja, o produto íntimo de felicidade que fomos capazes de gerar a partir de nosso comportamento e de nossas atitudes como cidadãos, como profissionais e, sobretudo, como seres humanos.

Uma vez que, como dizem poetas e filósofos, ninguém é capaz de ser feliz sozinho, se ao longo do ano fomos capazes de fruir momentos realmente felizes, certamente dividimos essa felicidade com alguém. E isso já é o suficiente para nos sentirmos melhores como seres humanos.

*Iran Coelho das Neves é Presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul.