O que acontece agora que Brasil tem 1º caso confirmado de coronavírus

Publicado em: 27/02/2020 às 07h30

Brasilagro

Foto: Divulgação

Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse que OMS 'já deveria' ter declarado uma pandemia

O Ministério da Saúde anunciou nesta quarta-feira (26/02) ter confirmado o primeiro caso do novo coronavírus no Brasil.

Dois exames atestaram que um empresário de 61 anos que vive em São Paulo foi infectado após viajar sozinho à Itália. Ele retornou na sexta-feira e apresentou sintomas, como febre, tosse, dor de garganta e coriza, dois dias depois.

Na segunda-feira, procurou atendimento médico no Hospital Albert Einstein, onde foi feito o primeiro exame. Depois, uma amostra foi enviada ao Instituto Adolfo Lutz, que fez contraprova e confirmou a presença do vírus.

O empresário está bem, segundo o ministério, e permanecerá isolado em sua casa até o desaparecimento dos sintomas. Sua mulher também será monitorada por mais duas semanas após cessarem os sinais da doença em seu marido.

De acordo com o governo, o protocolo internacional recomenda que ele seja mantido em sua residência, porque não se encontra em estado grave. No hospital, haveria o risco de ele transmitir o vírus para outros pacientes mais debilitados.

Também estão sendo monitorados cerca de 30 parentes que estiveram em sua casa em uma reunião de família no domingo. O ministério ainda está entrando em contato com passageiros que viajaram perto do paciente no avião que o trouxe da Itália.

"Agora, com o primeiro caso confirmado no Brasil, vamos ver como o vírus vai se comportar em um país tropical em pleno verão", disse o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

"É um vírus novo, que pode ou não manter o mesmo padrão de comportamento de transmissão que tem no hemisfério norte, com o frio."

Medidas para evitar que o vírus se espalhe
O Brasil já se encontrava desde o dia 4 de fevereiro no terceiro e mais elevado nível de alerta do sistema de vigilância epidemiológica, após o Ministério da Saúde decretar uma situação de emergência de saúde pública de importância nacional.

Anteriormente, o governo havia informado que essa etapa só seria alcançada quando houvesse um caso confirmado no país, mas Mandetta decidiu antecipá-la para ser capaz de fazer contratações emergenciais para preparar o país para receber os brasileiros que foram trazidos da China e mantidos em quarentena em uma base militar em Anápolis, em Goiás.

A decisão foi tomada após a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretar uma situação de emergência em âmbito global, ao manifestar preocupação com casos de transmissão fora da China e o impacto do coronavírus sobre os sistemas de saúde de países mais pobres.

Agora, com a confirmação do primeiro caso, serão ampliadas as ações da vigilância epidemiológica e os preparativos para atendimentos de possíveis pacientes na cidade de São Paulo, além de serem tomadas medidas de contenção para evitar que o vírus se espalhe em território nacional.

"São Paulo é a cidade mais populosa do país e tem uma comunicação com a Itália e países europeus e comunidades destas nacionalidades muito extensas, e esse trânsito deve se intensificar, porque as pessoas com receio do vírus antecipam sua volta das férias ou de intercâmbio", disse Mandetta.

Caso haja disseminação do vírus dentro do país, será dado início à fase de mitigação do surto, com ações para evitar que ocorram muitos contágios e mortes. "A situação não muda muito em relação ao que era feito com os casos suspeitos", disse o secretário de Saúde do Estado de São Paulo, Henrique Ferreira.

"A própria vigilância tem condições de atuar nesta nova epidemia que talvez venhamos a enfrentar por aqui. Mas ainda não podemos dizer que estamos nesta situação, porque temos apenas um caso aqui."

Desde a decretação de emergência, disse Mandetta, algumas medidas já foram tomadas antevendo diferentes cenários, como a compra de equipamentos de proteção e a licitação para aluguel de equipamentos usados em unidades de cuidados intensivos.

Foram adquiridos testes rápidos para ter um processo mais ágil de confirmação de casos. Também será ampliada a campanha de comunicação sobre a doença para orientar os cidadãos sobre como proceder.

Também foram consultados o Conselho Federal de Medicina e a Sociedade Brasileira de Infectologia para saber quais medicamentos serão necessários para atender possíveis pacientes.

Não há, até o momento, medicamentos retrovirais ou vacina específicos para o novo coronavírus. No tratamento, são usadas drogas para combater os sintomas da doença que ele causa — a covid-19. "Só vamos superar essa situação quando tivermos tecnologia para ter uma vacina. Por enquanto, é precaução e cautela", disse Mandetta.

O governo descartou suspender voos ou fazer um controle das fronteiras. "Fechar fronteiras ou fazer testagem em portos em aeroportos não tem eficácia nenhuma, porque os pacientes podem ter o vírus sem apresentar sintomas. Essa é mais uma doença que a humanidade vai ter que enfrentar", afirmou Mandetta.

OMS já deveria ter decretado uma pandemia, diz ministro
O governo alertou que o número de casos suspeitos no Brasil deve aumentar nos próximos dias, porque atualmente a classificação de risco para possíveis infecções do ministério leva em consideração 16 países — este critério tem como base países nos quais houve mais de cinco casos de transmissão local.

O planejamento de ações para este surto é similar ao que foi aplicado no país durante a pandemia de H1N1, em 2009, disse o ministro.

Uma pandemia é uma epidemia em escala global. Na segunda-feira (24/02), a OMS disse ainda ser cedo para decretar que este surto seja uma pandemia, porque não foi detectada uma disseminação descontrolada do novo coronavírus.

O ministro disse discordar desta posição. "Muito em breve, a OMS não vai trabalhar mais com nexo de país (para detecção de possíveis casos). Ela vai ter que fazer reunião com especialistas e considerar que se trata de uma pandemia. Aliás, já tem critérios para isso. Se ficar nesse nexo causal, vamos estar sempre correndo atrás", disse Mandetta.

Até a terça-feira, segundo a OMS, foram registrados 80,2 mil casos do novo coronavírus no mundo, dos quais 77,7 mil na China. Outros 33 países já foram afetados.

Mas o Ministério da Saúde aponta que o total de pacientes na China pode ser bem superior aos índices oficiais, porque muitas pessoas podem ter apresentado sintomas leves e não procurado atendimento médico.

De acordo com o governo federal, a tendência atual é de estabilização do número de casos na China e de elevação em outros países.

A Itália tornou-se nos últimos dias um dos países mais afetados na Europa, com mais de 300 casos confirmados e 12 mortes.

Além do Brasil, outros países, como Grécia, Algéria, Áustria, Croácia, Espanha e Suíça notificaram recentemente seus primeiros casos do novo coronavírus em pessoas que viajaram para a Itália.

No Brasil, além do primeiro caso confirmado, há 20 casos suspeitos sendo monitorados, em sete Estados — São Paulo (11), Santa Catarina (2), Rio de Janeiro (2), Minas Gerais (2), Espírito Santo (1), Paraíba (1) e Pernambuco (1). Outros 59 foram descartados.

O novo coronavírus já provocou 2,7 mil mortes — 2.666 na China. Isso aponta que o vírus tem uma taxa de letalidade no mundo de 3,4%. Mas este índice chega a 8% entre pacientes com 70 e 79 anos e a 15% entre aqueles com mais de 80 anos.

"Esta é uma síndrome gripal que se comporta de maneira mais agressiva nos pacientes de mais idade. Mas temos observado um número expressivo de pessoas se recuperando da doença", disse Mandetta.

Segundo dados da OMS, o período de incubação do vírus, ou seja, o tempo entre a infecção e o surgimento dos primeiros sintomas, é de até 14 dias, mas a média apontada até agora é de 5 dias.

O Ministério da Saúde informou que, até o momento, de acordo com os estudos feitos sobre o novo coronavírus, uma pessoa infectada é capaz de transmiti-lo para mais duas ou três pessoas, mas há casos em que chega a ser passado para até sete pessoas.

"Ainda não há um padrão bem descrito, mas podemos observar a maioria dos casos estudados estão nesta faixa de duas a três pessoas", afirmou o secretário de vigilância em saúde, Wanderson de Oliveira.

Estima-se que o paciente de São Paulo tenha entrado em contato com 50 a 60 pessoas após ser infectado. No entanto, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo, esclareceu que isso não significa que todas serão contaminadas.

"Mesmo que o número de pessoas com quem ele teve contato seja alto, estudos apontam que outros pacientes contaminaram de duas a três pessoas apesar de ter entrado em contato com 20, 30 ou 40 pessoas. Isso significa que o contato precisa ser mais íntimo para que haja transmissão", disse Gabbardo (BBC Brasil, 26/2/20)