Interditado e com reforma garantida pelo Estado, ‘Morenão’ projetou Campo Grande no futebol

Publicado em: 17/08/2019 às 07h05

Subcom

Foto: Divulgação/Saul Schramm

Placa comemorativa do jogo de inauguração: primeiro gol no Morenão foi do flamenguista Buião

A Capital Morena tinha pouco mais de 150 mil habitantes quando pelo menos 40 mil pessoas lotaram o Estádio Pedro Pedrossian (Morenão), na tarde daquele memorável 7 de março de 1971. Era inaugurada uma das maiores praças esportivas universitárias da América Latina e do Brasil, com a presença do seu construtor, o ex-governador Pedro Pedrossian. Em campo, Flamengo e Corinthians, um jogo histórico.

O Morenão projetou Campo Grande como sede de um dos estádios mais arrojados arquitetonicamente e estimulou o surgimento do futebol profissional no Sul de Mato Grosso, colocando clubes como Operário e Comercial nas principais competições nacionais. O complexo universitário federalizado, ao qual o estádio se integra, foi um divisor de águas no início dos anos de 1970 para uma cidade que cresceria mais de 100% naquela década.

Passados 48 anos, ficaram as lembranças de um período de glórias do futebol e as emoções vividas pelos torcedores, jogadores e dirigentes naquele monumento de concreto. O calendário do futebol brasileiro mudou, a divisão de Mato Grosso, em 1979, desestimulou a rivalidade em campo entre Campo Grande e Cuiabá e o Morenão hoje é consequência da má administração e falta de planejamento dos clubes: interditado por problemas estruturais.

Resgate do futebol

Por determinação do governador Reinaldo Azambuja, no entanto, o Morenão reviverá antes de completar meio século. A principal praça esportiva de Mato Grosso do Sul reabrirá os portões para a temporada futebolística de 2020, com a reforma emergencial que será feita pelo Estado em parceria com a UFMS (Universidade Federal de MS). Numa segunda etapa, será transformada em uma arena para sediar jogos nacionais e internacionais e outros eventos.

“A gente fica triste de ver a situação do Morenão e do nosso futebol”, aponta o ex-jogador Francisco Gonçalves Pereira, 79, o Mestre Gonça, volante do Comercial em 1973/77. “Fomos pioneiros no futebol profissional de Campo Grande e cada jogo no Morenão era uma guerra de torcidas, uma emoção incontida quando se encontravam os rivais Comercial e Operário”, lembra ele, hoje instrutor de uma escolinha de futebol em projeto da prefeitura.

O paulista Mestre Gonça foi um dos jogadores de expressão nacional que vieram para a Capital na época de ouro do futebol local. Companheiro de Pelé na Seleção do Exército Brasileiro, foi revelado no São Paulo e jogou no Corinthians e no futebol argentino, uruguaio e venezuelano antes de vestir a camisa do Comercial. “Vim para ficar alguns meses e se passaram 46 anos. Campo Grande me cativou, fiz muitas amizades aqui e sou muito feliz”, diz, emocionado.

O jogo do recorde

Para Rui Câmara, 66, goleiro do Operário e Comercial em 1974/81, a revitalização do Morenão proposta pelo Governo do Estado será o recomeço para o futebol em decadência, criando um novo estímulo nos clubes e uma cadeia de consumo que será beneficiada com grandes eventos esportivos e de entretenimento no estádio. “Torcemos para que isso ocorra e tenhamos o torcedor de volta ao Morenão e um futebol à altura, dirigido por gente do ramo”, observa.

Quem também torce pelo retorno dos grandes espetáculos no estádio é o radialista e hoje músico e produtor Reinaldo Costa, que se notabilizou como narrador de renome nacional no microfone da Rádio Cultura, entre os anos de 1974/78. Chamado de “Maquininha”, pelo seu estilo narrativo, Reinaldo, hoje com 65 anos, foi contratado pelo Sistema Globo em fevereiro de 1978, depois do jogo Operário 2 x Palmeiras 0, pelo Campeonato Nacional.

“Foi um dos momentos mais emocionantes que o Morenão me proporcionou, ao receber o convite do Luciano do Vale, que também estava indo para a Globo”, conta. “Aquele jogo (Operário x Palmeiras), soube depois, quebrou o recorde de público (38.122 pessoas) no Morenão. Era uma época fantástica do futebol local, Operário e Comercial chamavam a atenção pelas grandes campanhas e o torcedor prestigiava. Sinto muitas saudades.”

Quem também vivenciou esse apogeu do futebol e o Morenão lotado é Alberto Pontes Filho, 67, funcionário da UFMS há 40 anos na mesma função – setor de gerenciamento e manutenção do estádio. Ele guarda uma relíquia: o livro com a relação dos jogos, renda e público, entre 1973 e 2014. “A torcida emocionada e o futebol contava com jogadores de alto nível. Tenho esperança que vamos resgatar tudo isso. A reforma do estádio será o pontapé”, comenta.

Mini-Copa, o começo

Quando o Morenão foi projetado, Campo Grande era uma cidade interiorana, que já se sobressaia economicamente na relação com Cuiabá, a Capital. O futebol, ainda amador, era jogado no Estádio Belmar Fidalgo, no centro. Havia um descrédito quanto a finalidade do novo estádio em uma região deserta, que se expandiu. Mas a história do futebol local mudou a partir da Taça da Independência (uma Mini-Copa) realizada pelo Brasil em 1972.

Campo Grande sediou um dos grupos da competição internacional, que celebrou os 150 anos da Independência do Brasil, alcançando um dos maiores públicos e rendas da primeira fase. Desfilaram pelo Morenão as seleções da Iugoslávia, Paraguai, Bolívia e Venezuela, entre os dias 11 a 18 de junho daquele ano. O profissionalismo nasceria logo depois, com o Comercial estreando no Campeonato Nacional em 1973 ao ganhar a vaga numa disputa com o Operário.

“O Morenão e a UFMS revolucionaram o futebol e a cabeça dos mato-grossenses do Sul”, diz o fotógrafo Roberto Higa, 67, historiador do Estado em imagens. “Não podem deixar o Morenão acabar, é preciso ter mais sentimento com nossa história”, cobra. Higa lamenta não ter visto o OVNI que teria sobrevoado o estádio, no dia 6 de março de 1982 (jogo Operário x Vasco da Gama, com 24 mil torcedores) – um dos maiores avistamentos coletivos do fenômeno no mundo.